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Theodore Dalrymple e o Brasil: O que é a Vida Na Sarjeta?

         Theodore Dalrymple, um pseudônimo usado por Anthony Danniels, 67, psiquiatra britânico,  escreve A Vida Na Sarjeta elaborando uma análise minuciosa e intelectualmente honesta das condições, sentido e perspectivas da vida da subclasse inglesa. O objeto de sua análise não é nada mais nada menos que pacientes de baixa renda num hospital – no qual ele próprio trabalha – que atende tanto a periferia quanto detentos de uma penitenciária em Londres. O cerne da obra reside na alegação de que as condições de vida dessa população não são tão-somente determinadas em razão de causas econômicas, mas é, sobretudo, fruto de um zeitgeist ou, melhor dizendo, de uma cultura fomentada pela elite intelectual britânica que, ressentida por crer-se responsável pela pobreza da subclasse, fomenta e reproduz, pode-se dizer, dialeticamente o seu comportamento. É um retrato de Londres, pretendeu-se. Por não muita coincidência, reflete e retrata assustadoramente a realidade brasileira.

E a Faca entrou

        O espírito desta época, especificamente os símbolos da cultura e literatura, é notadamente caracterizado ora pelo culto à vítima, ora pela normalização e padronização da linguagem passiva. O primeiro ponto ganha destaque especificamente no período do pós-guerra tendo como razão principal o holocausto nazista e, consequentemente, na criação de uma visão dos judeus enquanto vítimas por excelência das barbáries nazistas. A partir daí, o espírito literário da época volta-se para o culto à vítima. Veja-se, por exemplo, como faz referência o autor[1] a Sylvia Plath em seu famoso poema Ariel, responsabilizando o pai por seu sofrimento, que vale dizer, além de responsabilizado por seu sofrimento, seu pai jazia morto desde que Plath tinha dez anos (a passividade e a predisposição em se ver como vítima não representam mera coincidência). Pois bem, Plath chega a se comparar aos judeus e o seu pai, aos nazistas, simplesmente em razão de ela sofrer por sua ausência e por ele ter sido alemão. Não deve aqui causar muita surpresa que o culto à vítima desencadeará em frigidez e indiferença ao sofrimento do outro, pois o simples fato de se comparar o sofrimento com relação à ausência do pai falecido, ao holocausto nazista simplesmente por ele ter sido alemão, já ilustra o bastante a indiferença com o sofrimento judeu na segunda guerra.

À primeira vista, essa doutrina pode parecer profundamente imaginativa e compassiva, mas a realidade é bem diversa: ela é, ou pelo menos pode ser (como veremos), uma máscara para a mais completa indiferença para com o sofrimento alheio. Ela dá a entender que todo sofrimento deve ser considerado a partir da própria estimativa do sofredor, o que significa que sofre mais quem expressa o sofrimento com mais força ou, pele menos, com mais veemência (DALRYMPLE, 2015, p. 134).

        Ora, por mais que se objete contra a possibilidade de se emitir juízos sobre qualquer sofrimento de alguém por isto dever ficar restrito ao âmbito subjetivo, de quem “sofre”, isto além de ser pouco provável, pode-se tornar um meio cruel de relativização do sofrimento alheio. Quem poderia afirmar, além de mim mesmo, que um mês de abstinência sexual se equivaleria a um mês em Auschwitz? Essa indagação só poderia fazer sentido se todo o sofrimento só pudesse ser considerado única e exclusivamente a partir da estimativa própria do sofredor. À própria ideia de não poder haver critérios para se avaliar o sofrimento do outro, sucederá que qualquer e toda coisa será sofrimento, sem nivelações, em abstrato, eliminando as chances de se possuir uma empatia genuína. Como elucida o autor:

Não importa qual seja a origem do sofrimento. Se não podemos julgar a afirmação de sofrimento de uma pessoa contrastando-a com sua situação, comparando-a, por exemplo, com a situação de outra porção da humanidade, então não deixamos nada para a imaginação e não precisamos dar um salto de empatia: baseamo-nos puramente naquilo que é declarado. Não temos qualquer noção do que seja sofrer em silêncio; e, ao mesmo tempo, somos obrigados a tomar parte na autopiedadede todo mundo (DALRYMPLE, 2015, p. 134).  .

        O segundo ponto está inseparavelmente conectado ao primeiro, pois a linguagem passiva possui estreitas ligações com o culto à vítima. O culto à vítima e, consequentemente, o vitimismo, decorre de “uma suprema vulnerabilidade e a disposição de ser uma baixa, uma vítima pode-se supor com segurança, são consideradas virtudes da mais alta ordem”(DALRYMPLE, 2015, p.131), enquanto a linguagem passiva é uma mera expressão desse sentimento, assim como também um indício claro da perda total da autonomia, da capacidade de se tomar decisões e delas ser-se responsável.

        Em um desses relatos em seu ambiente de trabalho, T. Dalrymple descreve a passividade, a predisposição a ver-se como vítima, de seus pacientes:

Ao ouvir o relato que as pessoas fazem de suas próprias vidas, como faço todos os dias, fico tomado de surpresa pela pequeníssima parte que atribuem aos próprios esforços, escolhas e ações. Implicitamente discordam da famosa máxima de Francis Bacon de que “o molde de fortuna dos homens está, principalmente, nas mãos deles”. Em vez disso, veem-se como massas nas mãos do destino(Dalrymple, 2014, p. 27-28).

            E completa:

É instrutivo ouvir a linguagem que utilizam para descrever suas vidas. A linguagem dos prisioneiros, em especial, nos ensina muito a respeito do fatalismo desonesto com que as pessoas buscam explicar-se para os outros, especialmente quando os outros estão em posição de ajudá-las de alguma maneira. Como médico que assiste pacientes uma ou duas vezes por semana, fico fascinado com o uso da voz passiva e de outros tipos de discurso utilizados por prisioneiros para indicar o suposto desamparo. Descrevem-se como marionetes do acaso (Dalrymple, 2014, p. 28).        

      A propagação dessas ideias – todas imbuídas da máxima marxista de que“não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência” –, não produziu efeitos desastrosos nos intelectuais progressistas que as propagaram, dado que a maioria pertence à classe média alta, mas ao contrário, a subclasse, no caso a britânica, da qual trata o autor, absorvendo essas ideias, mergulhou em um desastre sem tamanho. Os relatos do Dalrymple descrevem os efeitos na linguagem, no discurso, como se evidenciam as perdas da autonomia e mérito; independência e responsabilidade. O perpetrador não introduz facas no corpo de suas vítimas, esfaqueadas, degoladas, esquartejadas…, não mais! A faca, simplesmente, entrou.

 Intelectualismo

            Ao analisar a realidade da subclasse britânica e assim, revelando a origem dessa realidade, que é a então propagação de ideias catastróficas, insignificantes e insinceras pelos intelectuais – especificamente o intelectualismo progressista –, o autor explicita os danos que, não conhecendo a realidade diária desta subclasse, estes intelectuais lhe causam. As ideologias, à medida que visam tão-somente à pureza das ideias – como uma aspiração ao reino dos Nibelungos –, as consequências reais atingem, obviamente, aqueles menos privilegiados, mesmo que sejam os menos privilegiados, irônica e paradoxalmente o objeto da compaixão franciscana dos intelectuais que abraçam tais ideologias. Importante lembrar que a análise do Dalrymple é pertencente ao âmbito da crítica cultural e, por isto, não se trata especificamente de causas estritamente econômicas. O fato de a culpa da condição da subclasse inglesa ser imputada aos intelectuais, não decorre de outra coisa senão da investida do autor no resgate da autonomia e, consequentemente, do senso de responsabilidade desta mesma subclasse.

Como descreve o autor:

Não é necessário dizer que uma avaliação verdadeira das causas da miséria da subclasse é proveitosa, caso desejemos combatê-las e, principalmente, evitar soluções que só agravarão esse cenário. Se traço um quadro de um estilo de vida que é totalmente sem encanto ou mérito, e descrevo muitas pessoas pouquíssimo atraentes, é importante lembrarmo-nos de que, caso haja culpa, uma grande parte é devida aos intelectuais. Não deveriam ter sido tão tolos, mas sempre preferiram evitar-lhes o olhar. Consideraram a pureza das ideias mais importante que as reais consequências (Dalrymple, 2014, p. 23).

       As invectivas dos intelectuais progressistas contra qualquer expressão da alta cultura, em suas consequências reais, termina por, de um jeito ou de outro, erradicar, também, da classe trabalhadora, a aspiração ao melhor, ao que deve ser considerado melhor. A aspiração é um dos motores para a mobilidade social. A ideia de que a pobreza basta, a atual condição miserável de vida basta, ou que qualquer outra condição ou expressão cultural, pode ser relativizada a ponto de se equiparar à alta cultura é um dos principais fatores da baixa mobilidade social das subclasses. Aliando-se ainda mais à noção de que a cultura dos pobres ou da classe trabalhadora adquire valor em si mesma, considerada a única autêntica e a única que deve ser mantida.

       Utilizando o exemplo da BBC quanto à pronúncia da língua inglesa, a “received pronunciation”[2], elucida bastante o ponto anterior:

A BBC, que até poucos anos insistia, com muito poucas exceções, na “receivedpronunciation” de seus locutores, agora está correndo para assegurar que a fala enviada pelas ondas do rádio seja demograficamente representativa. A ideologia política por trás da decisão dessa mudança é clara e simples, um remanescente do marxismo: as classes altas e médias são más, o que era tradicionalmente considerado alta cultura não é nada mais senão algo usado para esconder o jugo das classes média e alta, sobre a classe trabalhadora; a classe trabalhadora é a única cuja dicção, cultura, modos e gostos são verdadeiros e autênticos, pois são valorados por si mesmos e não como um meio de manter a hierarquia social. (Dalrymple, 2014, p. 104)   

        A ideia comumente propagada pelos prosélitos da boa fé politicamente correta de que toda expressão cultural deve ser a todo custo mantida e deva, igualmente, ser considerada tão boa quanto qualquer outra – pois é, como qualquer outra, boa, bela e útil para os respectivos indivíduos que dela fazem parte –, retira o senso ou mesmo a vonlonté de pertencimento ou filiação a algo melhor, a uma vida melhor e, naturalmente, a uma cultura melhor…, à alta cultura! Tudo se torna igualmente válido, bom, tal como Sebastian Bach e Mister Catra seriam à mesma estima bons, pois a ideia agora nada tem a ver com a qualidade musical, mas com a composição social que representam. Assim como, por representação a uma composição específica, se convida a Marilena Chauí para palestras por apreço aos sanatórios brasileiros. Qualquer coisa serve! A crítica, o juízo de valor, a avaliação e a discriminação se tornaram uma demonstração inadmissível de “exclusivismos”. A nova ortodoxia para todas as classes é a seguinte: já que nada é melhor e nada é pior, o pior é melhor porque é mais popular (Dalrymple, 2014, p. 106). Na Inglaterra, descreve Dalrymple: “Quando qualquer um menciona grandes compositores, agora, é obrigatório juntar os Beatles com Schubert para consagrar a própria abertura mental, a bona fides democrática.” (Dalrymple, 2014, p. 106).

      Consequentemente, isso afetou os hábitos, comportamentos, mentalidades e caráteres da população britânica, como expressa o autor: “Por que os britânicos se tornaram pessoas tão vulgares e despudoradas em questão de três ou quatro décadas? Por que agora opera uma espécie de lei de Gresham comportamental, de modo que a má conduta expulsa a boa conduta?” (Dalrymple, 2014, p.108).

         Respondendo à questão, Dalrymple responsabiliza a produção intelectual nas academias que, partindo das elaborações teóricas dos intelectuais progressistas terminaram por alcançar a sociedade em geral em seus efeitos práticos.

Como muitos dos males modernos, a rudeza do espírito e do comportamento cresce das ideias cultivadas na academia e entre os intelectuais – ideias que transbordaram e que agora têm efeito prático no restante da sociedade. O relativismo que regeu a academia por muitos anos, hoje, vem reger a mentalidade da população. A classe média britânica comprou o jargão multicultural de que, no que diz respeito à cultura, só há diferença, não melhor ou pior. Como questão prática, significa que não há nada que escolher entre boas e más maneiras, refinamento e rudeza, discernimento e falta de discernimento, sutileza e grosseria, o elegante e o mal-educado. (Dalrymple, 2014, p. 108)

        Essa noção relativista das alta e baixa cultura, segundo o autor, representa, sobremodo, a falência total da subclasse inglesa, mas afirma, ademais, que as condições de vida dessa população não são tão-somente determinadas em razão de causas econômicas, mas é, sobretudo, fruto de um zeitgeist ou, melhor dizendo: de uma cultura fomentada pela elite intelectual britânica que, ressentida por crer-se responsável pela pobreza da subclasse, fomenta e reproduz, pode-se dizer, dialeticamente o seu comportamento. Em razão disto, somando-se ainda à ascensão do multiculturalismo, a intelligentsia britânica começou a não tão somente criar e fomentar o comportamento desta subclasse, mas também, adotá-lo, “imitá-lo”, como afirma Dalrymple:

Por ter, em parte, criado essa subclasse, a intelligentsia britânica, sentindo-se culpada pelos próprios antecedentes supostamente não democráticos, sente-se obrigada a agradá-la pela imitação e convenceu o restante da classe média a fazer o mesmo. Dessa maneira, assim como na Rússia czarista em que cada cidade e vila tinha o seu santo louco de Deus cujo egoísmo e conduta imprópria eram tomados como sinais de compromisso profundo com os princípios cristãos, nós, na Grã-Bretanha, temos agora centenas de milhares, talvez milhões, de pessoas de classe média cuja disposição de gritar “cair fora” por horas para os italianos[3] é a prova viva da pureza de seus sentimentos democráticos. (Dalrymple, 2014, p. 110).

      A pobreza, portanto, é sobremaneira, cultural, conclui o autor. Os efeitos do intelectualismo progressista, apesar de bonitinho e de cuja boniteza causar inveja até mesmo ao reino dos nibelungos, em seus efeitos, atingiu catastroficamente os pobres – aqueles que de fato lidam com a baixa cultura e sofre seus efeitos –, sem que isto, portanto, haja nem por um minuto, ocorrido às cabeças das pombas da paz progressistas, que de facto, não lidam nem por um segundo com os problemas que acometem à subclasse. Tudo em abstrato. Nada, todavia, surpreende-nos. O intelectualismo, afinal, tem os pés no chão, mas a cabeça, lá nas nuvens. 

Conclusão

          A conclusão é inevitável: os pobres também são, ironicamente, vítimas daqueles que se proclamam seus defensores por excelência, o que talvez elucide o fato de serem os pobres tão amados, e justamente por isso, na condição de amados, sejam impedidos de abandonar a pobreza.As elaborações teóricas dos ideólogos progressistas se distanciaram tanto da terra que se poderia presumir, verdadeiramente, que habitam a Terra Média de  J. R. R. Tolkien. Isto, naturalmente, afetou os pobres que absorveram suas ideias transformando-as em um modo de vida. O vazio, o niilismo, o egoísmo, a violência e a sordidez estão inteiramente ligados à divinização do indivíduo…, que precisa ser adorado, mas jamais responsabilizado! A extenuação da família dos mais pobres que representara uma meio viabilizador para a ascensão social; o desprezo pela alta cultura e, consequentemente, a eliminação completa de métodos avaliativos nas instituições de ensino sob a acusação de serem exclusivistas, criaram uma geração de incapacitados para os desafios exigidos para a ascensão social, também se mostraram eficazes no combate à riqueza. A miséria representa, portanto, a miséria cultural. Tudo é válido. Nada é objetivo, ativo, agente. Tudo é dependente, passivo, comandado. A pobreza, portanto, torna-se a marca de Caim e as classes, em castas. Ninguém sai…, ninguém entra.

Referências bibliográficas

DALRYMPLE, Theodore. A Vida na Sarjeta: o círculo vicioso da miséria moral. Trad. Márcia Xavier de Brito. 1.ed. São Paulo: É Realizações, 2014.

DALRYMPLE, Theodore. Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico. Trad. Pedro Sette Câmara. 1.ed. São Paulo: É Realizações, 2015.

[1]Dalrymple, Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico. Trad. Pedro Sette Câmara. São Paulo, É Realizações, 2015, p. 131

[2] Expressão usada para designar o sotaque padrão da Grã-Bretanha

[3] T. Dalrymple se refere a torcedores, compostos em sua maioria por indivíduos de classe média que viajavam a Roma para assistir a um jogo entre Itália e Inglaterra e que, durante o jogo, insultavam os italianos todo o tempo.